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Home » Viagens no Brasil » Caminhando com meu pai – da cachaça ao infinito


Eu tinha 9 anos, ou próximo disso. Meu pai, um simples operário que complementava sua renda trabalhando como camelô nos fins de semana, aproveitava nossas férias escolares para viajarmos. Como não tínhamos dinheiro para viagens caras, nos enfiávamos em fazendas de parentes ou amigos de minha mãe, que vivera na roça em sua infância.

Numa dessas viagens passamos uma semana inteira em uma fazenda nas proximidades da cidade de Rio Pomba, Minas Gerais. Era uma fazenda grande, mas simples. Não havia fornecimento público de energia elétrica. O rio que movia o moinho durante o dia movia também o gerador que fornecia a fraca energia elétrica à noite, suficiente para meia dúzia de lâmpadas no velho casarão da fazenda.

Certo dia meu pai me convidou para irmos visitar uma fazenda vizinha, onde conheceríamos o processo de fabricação artesanal de uma boa cachaça local. Criança que era, não conhecia o sabor do álcool e não seria naquele dia, obviamente, que conheceria. Mas o passeio me animou. Fomos de charrete e tive a honra de conduzir o cavalo, o que aprendi rapidamente.

A beleza da simplicidade, muitas vezes, marca muito mais que qualquer coisa

A beleza da simplicidade, muitas vezes, marca muito mais que qualquer coisa


Lembro-me como se tivesse sido ontem o homem simples na fazenda explicando o processo de destilação. Meu pai fez questão de pegar a primeira cachaça do alambique – a mais forte. Na verdade, ele mesmo nunca provou daquela pinga. Não gostava. No máximo, como bom filho de português, bebia um bom vinho. No Natal, somente. Aquele garrafão de cachaça tinha outro destino: oferecer em casa pequenas doses aos amigos apreciadores da boa cachaça. E vê-los fazer careta, surpresos, ao constatarem a potência incomum da bebida.

Mas o melhor do dia estaria por vir. Voltaríamos à pé. Percorrendo de volta uma estradinha estreita, de terra batida, totalmente plana. Cinco quilômetros de chão. Durante o caminho, anoiteceu e recebi a recompensa do dia. Longe da então minúscula cidade na Zona da Mata Mineira, em um lugar sem energia elétrica e, portanto, luz, o céu era de uma beleza inigualável. Pela primeira vez testemunhei um céu quase livre de poluição luminosa. Em 1970 ainda tínhamos pouco disso no país. E naquela região, ainda menos. Eram tantas estrelas que mal conseguia reconhecer os padrões de constelações que, na cidade maior, onde morava, havia aprendido a reconhecer, ensinado por minha avó portuguesa.

Recentemente pude capturar um pouco daquela beleza. Mas a foto não faz juz ao que vi naquele dia

Recentemente pude capturar um pouco daquela beleza. Mas a foto não faz juz ao que vi naquele dia


Naquela escuridão, o céu era a única fonte de luz. E como havia luz. A conversa de meu pai com seu amigo caipira já não me interessava, eu queria saber o que eram todas aquelas estrelas. De cores, tamanhos e intensidades diferentes. E o caminho leitoso cortando o céu, a Via Láctea, com suas manchas escuras no centro, levavam minha mente de criança curiosa a imaginar os mistérios do infinito. Ali, em um lugar incomum para um garoto da cidade, em um passeio sem luxo, sem glamour, sem hotéis, sem requintes, vivi o que de mais rico se pode viver neste planeta, o contato íntimo com a natureza sem a interferência do produto da mão do homem. O contato direto com a terra e o céu, sem filtros, sem intermediários, ao vivo e em muitas cores e luzes.

Obrigado, pai.

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2 Responses to Caminhando com meu pai – da cachaça ao infinito

  1. Paula Brum disse:

    Uma história emocionante. Mas só quem já teve a oportunidade de curtir um céu estrelado, longe da energia elétrica, pode entender seu significado. Ainda hoje aprecio as estrelas em nossa casa de campo e sempre penso que assim muitos outros o fizeram antes de mim e que maravilha que, embora com a modernidade da energia elétrica, baste desligar o interruptor e entrar num túnel do tempo. Amei. Linda homenagem ao pai. Abraços.

    • marcosjp disse:

      Oi Paula,
      Fico feliz que tenha gostado da minha singela história. Muito obrigado.
      Você tem razão. Estando em local propício, basta o simples gesto de desligar as luzes para entrarmos em uma máquina do tempo, podendo perceber o céu quase idêntico ao de, digamos, dois mil anos atrás.Hoje estamos tão distraídos com a rotina que quase nos esquecemos do que há a redor do nosso minúsculo planetinha.
      Um abraço e volte sempre! :)

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